Palavras-chave
epidemiologia - exercício físico - lesões - sistema musculoesquelético
Introdução
CrossFit é um programa de treino em que são propostos exercícios físicos constantemente variados
e de alta intensidade, e se trata, portanto, de uma modalidade de alta demanda biomecânica
e fisiológica, de forma que profissionais da área de saúde devem estar cientes de
suas características.[1]
[2]
[3]
A exposição a lesões ocorre principalmente se os movimentos não estiverem sendo executados
de maneira adequada.[3] Elas podem ser moduladas por fatores individuais (como anormalidades anatômicas,
idade e lesões prévias) e/ou características do treino (como planejamento e duração).[3]
[4] Ressalta-se que a prevalência de lesões aumenta com a falta de supervisão.[5]
[6]
[7]
Analisando as taxas de lesão, Summit et al.[4] relataram 73,5%, (3,1 lesões por mil horas de treino), ao passo que Weisenthal et
al.[8] identificaram 19% (2,4 lesões por mil horas de treino). Já Sprey et al.[1] mostraram que não existe diferença significativa em relação ao gênero, à idade,
aos dados antropométricos, à prática prévia de outros esportes, à duração e à frequência
semanal dos treinos, ao tempo de descanso, e à prática concomitante de outros esportes.[1] Porém, Xavier e Martins[3] apontaram que homens correm 2,9 vezes mais risco, e aqueles que treinam por mais
de 1 hora aumentam em 2,7 vezes a chance de desenvolver lesões.[3] Nesse mesmo estudo,[3] sobrepeso/obesidade e frequência semanal de treino foram apontados como fatores
de risco. As lesões mais frequentes são contusão, distensão e tendinopatia, e as regiões
corporais mais lesionadas são o ombro, a coluna e o joelho.[3]
[8]
[9]
[10]
[11]
[12]
Este estudo visou identificar o perfil epidemiológico e os fatores que influenciam
na ocorrência de lesões musculoesqueléticas em participantes de uma competição de
CrossFit realizada em Curitiba em 2017.
Materiais e métodos
Estudo transversal, aprovado por comitê de ética institucional (CAAE 68129117.6.0000.0093),
e realizado com adultos praticantes regulares de CrossFit que participaram de uma competição em outubro de 2017 e assinaram o termo de consentimento
livre e esclarecido. Os critérios de inclusão foram: maioridade, estar inscrito na
competição, e disposição de participar deste projeto de pesquisa. e os critérios de
exclusão foram menoridade e não estar inscrito na competição.
A amostra foi calculada com base no número de participantes do evento (634, sendo
446 homens), e obteve-se um tamanho amostral de 333 participantes (207 homens), com
5% de erro.
Como instrumento, elaborou-se um questionário ([Anexo 1], material disponível on-line) com questões descritivas e de múltipla escolha, que
foi preenchido e entregue ao pesquisador durante o evento. Foram obtidos dados antropométricos,
e dados relativos ao gênero, às características do treino, às práticas prévia e atual
de outros esportes, às características das lesões relacionadas à prática de CrossFit, ao acompanhamento com profissional de saúde, e ao consumo de suplementos alimentares.
Tabela 1
|
Masculino
|
Feminino
|
Gênero (%/número absoluto)
|
61,9%/214
|
38,1%/132
|
Peso (média)
|
81,44 kg
|
61,90 kg
|
Altura (média)
|
1,77 metros
|
1,64 metros
|
Foram consideradas lesões decorrentes da prática de CrossFit: queixa física grave o suficiente que necessitou de intervenção médica para o diagnóstico
e o tratamento; queixa física em que foi necessário modificar a duração, a intensidade,
ou o modo de treino por mais de duas semanas; e queixa física que levou à interrupção
dos treinos ou de outra atividade por mais de uma semana. O diagnóstico da lesão não
foi questionado pelos investigadores, que estiveram presentes para esclarecer eventuais
dúvidas dos participantes sobre a interpretação de o que foi considerado lesão decorrente
da prática de CrossFit.
As variáveis categóricas foram expressas mediante frequências relativas acompanhadas
pelos respectivos intervalos de confiança de 95%(ICs95%), e as variáveis contínuas,
por intermédio de médias e desvios padrão. As diferenças entre estratos foram identificadas
pelos testes exatos de Fisher para as variáveis qualitativas. As variáveis quantitativas,
como foram reprovadas para a normalidade pelo teste de Shapiro-Wilk, foram avaliadas
pelo teste de Mann-Whitney, e as análises estatísticas tiveram auxílio do pacote estatístico
Prism (GraphPad Software, San Diego, CA, Estados Unidos), versão 6.0.
Resultados
Entre os atletas, 346 se dispuseram a participar da pesquisa, e eles apresentavam
idade média de 28,6 ± 7,49 anos. Na [Tabela 1] estão demonstradas as medidas antropométricas. A maioria dos participantes (33%)
praticava o esporte havia mais de 24 meses, com treinos predominantemente (65%) de
60 minutos ([Tabela 2]).
Tabela 2
|
Masculino
(n = 214)
|
Feminino
(n = 132)
|
Tempo de prática (meses)
|
|
|
3–6
|
9,8%
|
7,6%
|
7–12
|
20,1%
|
18,9%
|
13–18
|
16,4%
|
28%
|
19–24
|
20,6%
|
12,9%
|
> 24
|
33,2%
|
32,6%
|
Número de dias praticados na semana
|
|
|
2–3
|
10,8%
|
15,9%
|
4–5
|
52,8%
|
47%
|
6–7
|
36,4%
|
36,4%
|
Duração dos treinos (minutos)
|
|
|
30
|
0,5%
|
0%
|
45
|
3,7%
|
1,5%
|
60
|
56,5%
|
79,5%
|
75
|
22,9%
|
11,4%
|
> 90
|
16,4%
|
7,6%
|
Dias de descanso
|
|
|
0–1
|
41,6%
|
48,5%
|
2–3
|
57%
|
47%
|
4–5
|
1,4%
|
3%
|
Obteve-se um total de 153 de lesões (44%), sendo 67,3% em atletas do gênero masculino.
Entre os lesionados, 33% apresentavam lesões prévias no local. O tipo principal de
lesão foi inflamação, e os locais anatômicos mais afetados foram ombro, coluna e joelho
([Tabela 3]).
Tabela 3
Lesão devido à prática de CrossFit
|
|
|
Total
|
153/346
|
|
Lesões por faixa etária
|
|
|
18–29 anos
|
46,8%
|
|
30–40 anos
|
40,5%
|
|
41–50 anos
|
35,4%
|
|
Lesão por gênero
|
Masculino
|
Feminino
|
|
48,1%
|
37,9%
|
Tipo de lesão devido à prática de CrossFit*
|
|
|
Fratura
|
7,8%
|
6%
|
Contusão
|
19,4%
|
12%
|
Entorse
|
22,3%
|
18%
|
Inflamação
|
68,9%
|
78%
|
Luxação
|
9,7%
|
2%
|
Ruptura
|
5,8%
|
4%
|
Outros
|
1,9%
|
0%
|
Conduta após a lesão*
|
|
|
Procura de ajuda médica
|
70,9%
|
72%
|
Modificação de treino (duração, intensidade ou modo por mais de 2 semanas)
|
47,6%
|
50%
|
Parar prática de CrossFit ou de qualquer outra atividade por mais de uma semana
|
14,6%
|
6%
|
Nenhuma das anteriores
|
3,9%
|
4%
|
Outros
|
0%
|
2%
|
Quantidade de lesões devido à prática de CrossFit
|
|
|
1
|
56,3%
|
56%
|
2
|
29,1%
|
34%
|
3
|
5,8%
|
8%
|
> 3
|
6,8%
|
2%
|
Região do corpo lesionada*
|
|
|
Ombro
|
56,3%
|
48%
|
Coluna
|
25,2%
|
26%
|
Joelho
|
19,4%
|
32%
|
Punho
|
15,5%
|
12%
|
Cotovelo
|
4,9%
|
6%
|
Abdome
|
3,9%
|
0%
|
Pescoço
|
2,9%
|
6%
|
Perna
|
2,9%
|
2%
|
Tornozelo
|
2,9%
|
2%
|
Tórax
|
2,9%
|
0%
|
Panturrilha
|
1,9%
|
8%
|
Pelve
|
1,9%
|
2%
|
Coxa
|
1,9%
|
0%
|
Pé
|
1%
|
0%
|
Mão
|
0%%
|
2%
|
Quadril
|
0%%
|
2%
|
Outros
|
2,9%
|
4%
|
Existência de lesão prévia no mesmo local lesionado
|
35%
|
30%
|
A [Tabela 4] mostra a comparação das variáveis dos grupos de lesionados e não lesionados.
Tabela 4
Variável
|
Lesão
|
|
Valor de p
|
|
Sim (n = 153)
|
Não (n = 193)
|
|
Gênero feminino
|
32,7%
|
42,5%
|
0,075
|
Gênero masculino
|
67,3%
|
57,5%
|
|
Prática de outro esporte
|
41,4%
|
36,8%
|
0,436
|
Lesão prévia
|
34,4%
|
0,0%
|
0,548
|
Acompanhamento por profissional de saúde
|
75,8%
|
75,5%
|
1,000
|
Uso de suplementos
|
79,7%
|
79,6%
|
1,000
|
Frequência semanal dos treinos (dias)
|
5,0 ± 1,1
|
5,0 ± 1,1
|
0,963
|
Duração do treino (minutos)
|
68,2 ± 12,4
|
64,5 ± 10,3
|
0,002
|
Dias de descanso
|
1,7 ± 0,7
|
1,6 ± 0,8
|
0,778
|
O acompanhamento regular com profissionais da saúde era realizado por 75,8% dos atletas,
sendo o nutricionista o mais procurado. O uso de suplementos alimentares era comum,
e 79,8% afirmaram consumi-los, com predomínio das mulheres ([Tabela 5]).
Tabela 5
|
Masculino
|
Feminino
|
Acompanhamento regular com profissional de saúde
|
75,2%
|
75,8%
|
Quais profissionais de saúde (sim, para resposta anterior)*
|
|
|
Nutricionista
|
75%
|
72,5%
|
Fisiologista
|
11,3%
|
5%
|
Personal trainer
|
17,5%
|
14,9%
|
Clínico geral
|
21,3%
|
13,9%
|
Nutrólogo
|
16,9%
|
19,8%
|
Fisioterapeuta
|
11,9%
|
5,9%
|
Outros
|
13,1%
|
12,8%
|
Uso de suplemento alimentar
|
76,2%
|
85,6%
|
Quais suplementos? (sim, para a resposta anterior)*
|
|
|
Whey protein
|
90,8%
|
86,7%
|
Aminoácidos de cadeia ramificada (branched-chain amino acids, BCAAs, em inglês)
|
50,3%
|
53,1%
|
Albumina
|
5,5%
|
5,3%
|
Caseína
|
5,5%
|
5,3%
|
Creatina
|
41,1%
|
46,9%
|
Termogênico
|
17,8%
|
22,1%
|
Outros
|
22,1%
|
18,6%
|
Prescrição de suplemento por profissional de saúde
|
76,1%
|
77,9%
|
Qual profissional fez a prescrição?*
|
|
|
Nutricionista
|
50,3%
|
61,1%
|
Médico (exceto nutrólogo)
|
6,1%
|
3,5%
|
Nutrólogo
|
10,4%
|
8%
|
Personal trainer
|
1,2%
|
0%
|
Outros
|
0,6%
|
0%
|
Discussão
Estudos[8] relatam altas taxas de lesão no CrossFit devido à repetitividade e à intensidade dos exercícios, ao passo que outros[9] negam essa hipótese por conta do elevado nível de supervisão e instrução durante
a prática. Neste estudo, evidenciou-se uma taxa de lesões de 44%, resultado superior
aos 31% de Sprey et al.,[1] o que pode ser justificado pelo fato de a amostra ser restrita a atletas de nível
competitivo. Quando comparado a outros esportes em que se realizam movimentos equivalentes
(como levantamento de peso e ginástica olímpica), foram encontradas taxas similares.[2]
[9] No entanto, ao comparar com esportes coletivos como o futebol, as porcentagens neste
último foram maiores (de 57% a 61,8%).[1]
[10]
[11]
[12]
[13]
Neste estudo, as lesões mais frequentes foram inflamação, entorse e contusão, dados
que contrastam com os de Xavier e Martins,[3] que relataram a contusão como principal lesão. Atletas homens apresentaram mais
lesões, o que está em concordância com a literatura.[13] Já o gênero feminino se mostra mais cuidadoso quanto à procura de instrução do treinador,
sobrecarga de peso, frequência de treinos, e realização de exercícios.[8]
[9]
Nota-se que a maioria das lesões (46,8%) ocorreu entre os mais novos (18 a 29 anos
de idade), provavelmente devido a maior impulsividade e exibicionismo ao realizar
exercícios com mais carga ou repetições. Ademais, a taxa de lesões mostrou-se indiretamente
proporcional à idade, sendo que a faixa etária entre 41 e 51 anos foi menos lesionada
(35,7%), o que indica que esses atletas podem ser mais cautelosos na execução dos
movimentos ou terem melhor técnica.
A duração dos treinos foi um dado significativo, que indica que os que treinam por
mais tempo se lesionam mais. Supõe-se que a maior fadiga e a menor concentração levem
a movimentos errôneos que precipitam lesões. Em referência à região corporal lesionada,
54% das lesões acometeram o ombro, 25%, a coluna, e 24%, o joelho, o que está em concordância
com a literatura.[3]
[8]
A maior procura por nutricionistas (73,9%) em comparação a médicos (18,4%), pode revelar
maior atenção para a alimentação e suplementação (objetivando um corpo de bom aspecto
estético) e menor para as suas comorbidades.[14]
[15]
[16]
[17]
[18] As mulheres consomem mais suplementos, provavelmente numa tentativa de manter o
mesmo padrão de treinamento do que os homens e/ou por desejarem mudanças na imagem
corporal.[18]
Estes achados apontam a necessidade de monitorar, quantificar e regular a carga individual
de treinamento[2]
[16] para minimizar exageros e danos à saúde física, psíquica e social.[18] As lesões esportivas são multifatoriais, e sua prevenção continua sendo o melhor
tratamento.[19]
[20]
O estudo apresentou limitações, uma vez que as informações foram obtidas em uma única
competição, e dependeram da memória e do entendimento dos participantes sobre o conceito
de lesão. Além disso, fatores como estresse físico e emocional podem ter influenciado
na concentração para o correto preenchimento do questionário. Futuros estudos epidemiológicos
devem conter um maior número amostral e realizar coletas em mais competições, para
obter resultados mais heterogêneos e representativos da população, a fim de identificar
outros fatores de risco associados.
Conclusão
O percentual de atletas que já sofreram lesões devido à prática de CrossFit foi de 44% (48% dos homens e 38% das mulheres). O principal tipo de lesão foi inflamação,
e os locais anatômicos mais lesionados foram ombro, coluna e joelho. Entre as variáveis
analisadas, a única que se associou de forma significativa foi a duração dos treinos
(p = 0,002).