Descritores: Nariz - Rinoplastia - Face - Satisfação do paciente - Deformidades adquiridas nasais
INTRODUÇÃO
A correção da relação radix dorso nasal é realizada há vários anos utilizando as mais
variadas técnicas como enxerto de cartilagem auricular, septal ou costal,
preenchimento com ácido hialurônico, uso de fáscia e enxertos e uso de cartilagem
picada em cubo, silicone e ácido hialurônico[1 ]
[2 ]
[3 ]
[4 ].
A utilização de cartilagem picada na região dorsal teve início logo após a Segunda
Guerra Mundial com os trabalhos de Gordon & Warren[1 ] e Peer[2 ]. Logo depois deste período, a dificuldade em se estabelecer
critérios seguros diminuindo complicações locais resultou na pouca utilização deste
recurso e somente na década de 1990 a técnica foi retomada pelos trabalhos de
Erol[3 ]
[4 ]
[5 ], com o “Turkish delight ”, e a
reprodução por Guerrerosantos et al.[6 ] e Daniel & Calvert[7 ].
Com a possibilidade da reprodutibilidade da técnica descrita em vários
estudos[8 ]
[9 ]
[10 ]
[11 ]
[12 ]
[13 ]
[14 ], há a descrição da cartilagem picada com colocação
em planos na superfície nasal, através do uso ou não de fáscia muscular.
O enxerto de cartilagem é comumente utilizado no aumento de dorso nasal, seja como
cartilagem íntegra, seja com a cartilagem picada. A região do radix é uma das
principais beneficiadas com o uso de cartilagem nesta região, o que permite um dorso
com maior harmonia e beleza visual. Segundo McKinney & Sweis[15 ], a altura ideal do radix é de três
quartos do comprimento nasal ou da projeção nasal. Segundo Taş[13 ], a utilização de enxerto de
cartilagem picada na região dorsal é uma maneira de estabelecer um dorso belo e
suave.
OBJETIVO
Neste estudo analisamos a utilização do enxerto de cartilagem picada no aumento da
altura do radix nasal. O uso de cartilagem fragmentada é descrito na literatura e
tem ganhado adeptos desta técnica nos últimos anos. O objetivo é descrever nossa
experiência com a utilização do enxerto de cartilagem fragmentado no aumento do
dorso comparando a percepção visual e tátil com a satisfação do paciente.
MÉTODO
O estudo foi realizado em pacientes submetidos a rinoplastia no período de janeiro
2018 a junho de 2022, no Hospital Centro Estadual de Reabilitação e Readaptação Dr.
Henrique Santillo, em Goiânia, GO, em cirurgias nas quais ocorreu o aumento de radix
com o uso de enxerto de cartilagem picada, sendo os pacientes avaliados com 6 meses
de pós-operatório.
Como critérios de exclusão foram estabelecidos pacientes menores de 18 anos, com
comorbidades reumatológicas, doenças que destroem a cartilagem como leishmaniose,
hanseníase e granulomatose de Wegener.
O estudo foi aprovado por comissão de ética interna do hospital e plataforma Brasil
CAEE 30798120.6.0000.5082 e os dados foram tabulados em Excel 23
(Microsoft® ), sendo coletadas as seguintes informações: idade, sexo,
classificação de Fitzpatrick, espessura da pele, origem do enxerto, complicações,
percepção tátil ao enxerto e percepção visual do enxerto e satisfação com o
resultado.
RESULTADOS
Foram estudados 47 pacientes submetidos a aumento de radix com cartilagem picada.
Destes, 35 (74,4%) eram do sexo feminino e 12 (25,6%) do sexo masculino, com média
de idade de 34,6 anos (18-44).
Quanto ao tipo de pele Fitzpatrick, tipo 2 (n=4, 8,5%), tipo 3 (n=28, 59,5%), tipo
4
(n=14, 29,8%) e tipo 5 (n=1, 2,2%), sendo pele fina (n=7, 14,9%), pele média (n=23,
48,9%) e pele grossa (n=17, 36,2%) ([Figuras 1 ] e [2 ]).
Figura 1. Classificação de Fitzpatrick.
Figura 2. Origem dos enxertos.
A origem da maioria dos enxertos foi de cartilagem septal (n=39, 83%), cartilagem
costal (n=6,12,8%) e auricular (n=2, 4,2%) ([Figura 3 ]).
Figura 3. Espessura da pele.
Complicações presentes foram infecção (1 caso), migração de cartilagem picada (3
casos) e reabsorção parcial (1 caso).
Na avaliação da percepção tátil 42 pacientes (89,3%) percebiam à palpação as
proeminências cartilaginosas, porém isto não os incomodava ([Figura 4 ]).
Figura 4. Percepção visual.
Na avaliação visual apenas 2 pacientes percebiam a irregularidade, em que foi
realizada raspagem local com resolução ([Figura 5 ]).
Figura 5. Percepção tátil.
Dos pacientes estudados, 45 referiram satisfação com o resultado (muito satisfeito
e
satisfeito) ([Figura 6 ]).
Figura 6. Satisfação do paciente.
Nas Figuras de [7 ]
[8 ]
[9 ]
[10 ]
[11 ]
[12 ] a [13 ], demonstração dos procedimento no preparo da cartilagem, sua
introdução no rádix e a visualização do resultado.
Figura 7. Cartilagem.
Figura 8. Aplicação da cartilagem fragmentada no radix.
Figura 9. Aferições no pré-operatório imediato.
Figura 10. Pós-operatório imediato.
Figura 11. Pré-operatório com rinomanômetro.
Figura 12. Pós-operatório imediato à introdução de cartilagem no radix.
Figura 13. Pós-operatório tardio: 1 ano.
DISCUSSÃO
As primeiras experiências descritas por Gordon & Warren[1 ] serviram para validação da técnica, mostrando que a
cartilagem sobrevivia ocupando o espaço em que a mesma foi inserida. A partir disto
vários usos foram iniciados em hernioplastia[16 ], reconstrução de parede costal[17 ], nariz e face[18 ]
[19 ] e
quadril[20 ]. A dificuldade
em reproduzir a técnica com domínio acabou deixando-a esquecida, sendo somente
resgatada por Erol décadas depois.
Os trabalhos iniciais descritos por Erol utilizavam Surgicel ou fáscia para alojar
os
enxertos de cartilagem picada, no conhecido Turkish
delight
[3 ]. A
versatilidade de tamanhos e espessura, bem como sua utilização em cirurgias
primárias e secundárias permitiram a difusão desta técnica[21 ].
Os enxertos na região nasal fazem parte da rinoplastia moderna, sendo parte de
reorganização da estruturação e da melhora da forma. A facilidade de inclusão da
cartilagem picada sem a necessidade de uma fixação mais rígida como o fio de
Kirschner ou parafuso facilita sua utilização e a possibilidade de moldar o dorso
pela maleabilidade do enxerto é uma vantagem superior ao uso do enxerto tipo
onlay .
Vidal et al.[12 ] descrevem a
importância do uso de enxerto de cartilagem picada na relação ponto, dorso e radix,
ressaltando a importância de uso de técnica adequada pelo descolamento de área
restrito apenas ao volume a ser enxertado, a introdução de enxerto através de
seringa 1ml com a ponta retirada e a microporagem imediata à introdução do enxerto
para moldagem adequada. Em nossa experiência concordamos com estas afirmações e que
podemos utilizar a seringa desenvolvida por Erol ao invés da seringa de 1ml sem
prejuízo, além da possibilidade de túnel acima do periósteo ou pericôndrio para
inserção das cartilagens picadas.
A percepção da irregularidade cartilagem ao tato é descrita em outros
trabalhos[21 ]
[22 ], porém este estudo verificou que a
mesma não é perceptível visualmente e apresenta resultados interessantes. Ma et
al.[23 ] descrevem que a
fragmentação com pedaços de cartilagem inferiores a 0,5mm permite diminuir a
visibilidade de irregularidades, corroborando com os resultados deste estudo.
A utilização de cartilagem onlay sobre a região do radix pode
apresentar encurvamentos que distorcem a simetria da região ou mesmo na palpação
serem percebidos em assimetria e mobilização. O uso de cartilagem picada apresenta
percepção tátil, mas em geral sem alteração visual. Atualmente, o uso de cartilagem
picada pode ser associado ao uso de plasma rico em plaquetas que cria uma estrutura
contínua e unificada o que pode ser solução tanto para percepção tátil quanto para
evitar a migração.
O estudo apresenta limitações como o seguimento ser apenas de 6 meses, o que pode
invariavelmente no longo prazo apresentar maior índice de reabsorção local. A região
estudada é limitada ao radix. Sendo estudo observacional, apresenta os vieses
relacionados a sua elaboração como de seleção ou informação, bem como possível
presença de fatores de confusão.
CONCLUSÃO
O estudo demonstrou que a cartilagem picada livre pode ser utilizada na região do
radix com resultados satisfatórios, apresentando baixo índice de percepção visual
quando comparado à percepção tátil, sem influenciar negativamente na satisfação do
resultado.
Bibliographical Record FABIANO CALIXTO FORTES ARRUDA. Percepção tátil e visual no aumento de radix com cartilagem
fragmentada livre na rinoplastia. Revista Brasileira de Cirurgia Plástica (RBCP) –
Brazilian Journal of Plastic Surgery 2024; 39: 217712352024rbcp0807pt. DOI: 10.5935/2177-1235.2024RBCP0807-PT